MÁGOA: UMA PORTA PARA A DEPRESSÃO

on segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Nós somos seres gregários. A nossa tendência natural é viver em grupo. E viver em grupo implica em relacionar-se com outras pessoas. Relacionamentos são fundamentais para a estruturação e manutenção da nossa maneira de ser. Relacionamento é a grande marca do ser pessoa.
Mas, ao longo do conviver com outras pessoas, fatos acontecem que nos atingem provocando dores. Se não soubermos administrar as situações adversas, feridas surgirão e se estabelecerão em forma de magoa e de ressentimento. Quando isto acontece ficamos emocionalmente contundidos e abrimos uma grande porta para a entrada do sentimento de vingança, do abatimento, e até da depressão.
O Dicionário LELO da Língua Portuguesa define mágoa como sendo “Nódoa, mancha resultante de contusão”. MAGOAR: “Contundir, pisar, ofender, melindrar, contristar”; MAGOADO: “Contundido, pisado, ofendido”.
Quando alguém é alvo de um golpe provocado por um objeto qualquer, em seu corpo se estabelece uma mancha escura, isto é, uma mágoa física. Da mesma forma, quando há algum desentendimento, ou a pessoa é atingida por palavras ou atitudes danosas por parte de outrem, sobretudo se for da parte de alguém íntimo afetivamente, o comum é o atingido ficar magoado, ficar emocionalmente contundido. Como todo atleta contundido fica fora do jogo até que seja restaurado da contusão, assim também é com o ser humano. O magoado é colocado fora do jogo da vida e necessita de tratamento urgente, a fim de que se torne saudável e tenha plenas condições de conviver.
A mágoa é uma emoção negativa que, quando cultivada no plano emocional profundo, se transforma num sentimento, e se estabelece como uma atitude negativa que traz à pessoa magoada conseqüências desastrosas diversas.

A mágoa afasta pessoas umas das outras.

Aquele que nos era apreciado e que nos traiu, nos denegriu, ou nos atingiu de alguma forma danosa, passa a não mais ser uma companhia desejável. O sentimento de mágoa ocupa o lugar desta pessoa dentro de nós. A mágoa passa a ser em nós, o representativo daquela pessoa. Como a ação do outro nos trouxe dores, o sentimento de mágoa ao ocupar o lugar dele dentro de nós, o empurra para longe de nós. É comum ouvir-se de pessoas magoadas a seguinte expressão: “Não quero mais meia com fulano. De agora em diante ele morreu pra mim; é ele lá e eu cá. E se eu for por uma rua e ele estiver passando por ela, eu mudo de lado ou de rua. Mas com ele eu não cruzo”.
Isto fala da força destruidora da mágoa nos relacionamentos.

A mágoa limita o nosso potencial de ação.

Aquilo que poderíamos fazer juntamente com o nosso desafeto, e que teria uma grande abrangência de realização fica limitado, porque a reação mais comum é o afastamento do convívio com aquele que nos feriu. E quando se é obrigado a estar com ele, e a atuar juntos, a dor interna e a tendência à repulsa ao outro se faz forte, e nós, por não mais sentirmos liberdade de empreender ações espontâneas e prazerosas com ele, diminuímos a produção do que poderíamos fazer juntos. Além de desejar intensamente estar bem distante da companhia que não nos é mais agradável. Neste caso, a sensação que se sente é de sacrifício.
Um dos grandes problemas das empresas onde há vários funcionários é exatamente a presença de conflitos e o estabelecimento de mágoa neles. A mágoa tem o poder de provocar isolamento e de diminuir a produtividade coletiva.

A mágoa é um grande provocador de doenças.

Tanto à saúde mental, quanto à saúde física são atingidas pelo cultivo de mágoa no plano emocional profundo. E todo sentimento cultivado no plano emocional profundo sempre aflora ao plano superficial das emoções e dá o tom das nossas palavras e das nossas atitudes. Doenças diversas se estabelecem como resultado do preservar mágoas na alma. Os estudiosos da área da saúde declaram que cerca de 80% das enfermidades das quais se queixam os pacientes que vão aos consultórios, não é de origem orgânica em si, mas de fundo emocional. E um dos grandes vilões é a mágoa.
Quando as pessoas armazenam emoções negativas dentro de si e em especial tristeza, mágoas e ressentimentos, estas emoções têm o poder de ficar estimulando monotonamente a glândula hipófise, levando-a a produzir determinadas substâncias químicas importantes para o organismo, mas numa proporção de produção desregulada e em qualidade inadequada. E tanto o seu excesso, quanto a sua insuficiência geram doenças várias no organismo. Ou seja: aquilo que deveria ser uma bênção passa a ser um problema.
Doenças nos ossos, no estômago, dores de cabeça e até o câncer são as mais comuns resultantes da mágoa e do ressentimento arquivados na alma do ferido.
O rei de Israel, o poeta salmista Davi, enfrentou momentos difíceis por permitir o abrigo de mágoa em sua alma. No salmo de número seis ele declarou que ficara magoado com pessoas que o estavam traindo. À sua mesa comiam, e em sua ausência o traíam. Ele declarou: “Já os meus olhos estão consumidos pela mágoa, e têm-se envelhecido por causa de todos os meus inimigos” (Sl.6:7). Por preservar-se magoado ele sofreu enfermidades nos ossos e em sua estrutura psíquica. Ele disse: “Sara-me, Senhor, porque os meus ossos estão perturbados. Até a minha alma está perturbada;” (Sl.6:2b,3a). Ao invés de dormir e descansar Davi passava as noites remoendo as feridas, chorando e apodrecendo. As ofensas não tratadas adequadamente deixaram como saldo uma grande mágoa com repercussão em seu corpo e em sua estrutura mental e emocional, e o fruto disto foi: olhos amortecidos e um semblante envelhecido. Houve perda de qualidade de vida.

Outro aspecto importante em relação à mágoa é que ela além de não resolver o problema do relacionamento quebrado, ela aprisiona o magoado.

Quem carrega mágoa dentro de si fica acorrentado. Agora são dois presos. O ofensor acorrentado pela culpa, e o ferido acorrentado pela mágoa; e como não consegue se libertar da prisão vai se envenenando, apodrecendo, se deprimindo e morrendo de forma lenta e sofrida. Só há uma maneira de resolver problemas de relacionamentos quebrados e de mágoas estabelecidas: é através do perdão concedido. Perdoar quebra correntes, arrebenta portas de prisões, liberta o ofendido, e também libera o ofensor, independente do tipo de ofensa ocorrida. Quem mais lucra com o conceder perdão, não é o ofensor, é o ofendido. Perdão é fonte de cura.

(Autor: Ap. Rubem Cavalcante)

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