Quando alguém é atingido de forma danosa por outrem, geralmente a sua primeira reação é de ira e explosão em forma de palavras quase sempre amaldiçoadoras. É o sentimento de decepção, de frustração, de revolta, de inadequação se manifestando de forma violenta, pelo fato da pessoa ter-se sentido violentada. Mas, além da ira se manifestar em forma de explosão, ela pode também se manifestar em forma de implosão. Ou seja: além de explodir para fora, um grande grupo de pessoas explode para dentro de si mesmas também. É a mágoa. Mágoa é ira implodida. É a ira se manifestando para dentro da pessoa ferida. Como em toda explosão acontecem danos diversos, também há danos vários naquele que estoura para dentro de si mesmo. Toda bomba tem em si grande potencial de destruição.
Todo aquele que é ferido e preserva-se magoado carrega o ofensor dentro de si como um morto, em forma de lembrança ressentida e magoada. Quem transporta morto é caixão de defunto; e todo morto é depositado numa sepultura, no cemitério e apodrece. Logo, conclui-se que as pessoas que são atingidas danosamente e que não tratam da questão de forma adequada, se transformam em caixão de defunto, em sepultura, em um cemitério. Como em terra de sepultura só há apodrecimento, o magoado e ressentido também apodrece, cheira mal, adoece e morre em grande sofrimento.
Não estamos com estas considerações dando razão ao errado, ao ofensor, não. Pelo contrário: entendemos que erro é erro, e que deve ser tratado adequadamente, a fim de que não fiquem seqüelas graves. Mas a nossa proposta é de tratamento e cura do ferido, para que lhe seja restaurada excelente qualidade de vida. O que estaremos propondo ao longo destas reflexões neste programa é uma ajuda às pessoas, a fim de que consigam administrar melhor as situações adversas, ao ponto de não perderem a beleza da graça da vida.
Há pessoas que, por não conseguirem lidar com a dimensão do sentimento de ferida e dor, se recolhem em sua tristeza, na decepção e no ressentimento ficando prisioneiras em si mesmas, sem jamais conseguir sair da cadeia, e em consequência disto se deprimem, às vezes em dimensão profunda. Na depressão o viver perde o sentido; existir deixa de ser agradável e desejado; morrer se torna o grande desejo. É como se elas estivessem querendo se libertar de um fardo indesejável e grandemente pesado. Só que morrer, não remove mágoas, não restaura relacionamentos, não traz lucros, não resgata prejuízos, não estabelece vitória. O melhor, portanto, é tratar das questões que causam tormento e prosseguir vivendo com qualidade.
O maior problema das famílias e das empresas é a presença de conflitos entre os seus integrantes. A maior dificuldade para a solução dos conflitos é se conseguir que as pessoas queiram abrir mãos das mágoas e ressentimentos e declarar perdão aos desafetos. Quando se consegue que ofensas sejam perdoadas, o triunfo é geral. Triunfam as famílias, triunfam as empresas, triunfam as pessoas, e o bem coletivo é resguardado da destruição.
Para resolver a questão das ofensas e das feridas é fundamental lidar com a situação danosa o mais rápido possível, para que não haja maiores prejuízos.
O nível de saúde física e mental de uma pessoa é proporcional ao tempo decorrido entre a ofensa causada e o perdão liberado. Quanto mais rápido se tratar da situação e se declarar verdadeiramente perdão ao ofensor, mais saúde se terá. Saúde nas emoções, saúde nos sistemas de pensamentos, e saúde no corpo. E em quem a saúde impera há bom nível de equilíbrio, tranqüilidade e paz. Até o organismo declara-se muito agradecido, por não ter que trabalhar em sofrimento e ser destruído.
Como lidar com a questão das ofensas, das feridas e das mágoas?
A regra geral é esta: O ofensor deve reconhecer o seu erro e procurar o atingido para, em conversa sincera, reconhecer a falta e pedir perdão. Ao ofendido cabe tratar da situação numa conversa amadurecida e declarar perdão ao ofensor. Ao fazer isto está quitando o débito que o outro tinha para consigo. Caso o ofensor não o procure para encaminhar solução para o problema, cabe ao ofendido procurá-lo, se entender que este será o caminho viável, mas, sem o direito de usar a metralhadora do xingamento; deve tratar da situação, colocando os pontos devidos com clareza, sem ofensa, sem desforra. Se o ofensor não vier se retratar e buscar o perdão, ou se o atingido entender que não será viável o encontro, por uma questão de atitudes violentas do ofensor, o ideal é que este libere perdão a quem lhe causou dano unilateralmente. Isto é: de cá mesmo deve abrir a boca, derramar o coração e declarar perdão a quem lhe causou dano. Esta atitude não significa falta de vergonha como muitos dizem, nem subserviência, é uma expressão de humildade e nobreza de caráter, que visa destruir aquilo que poderia destruí-lo, a mágoa. Ao perdoar, o ofendido está tratando de si mesmo, cuidando de sua saúde, lidando com o seu bem estar, para não apodrecer e morrer em grande sofrimento.
Perdoar logo a que nos ofender é o melhor caminho para se viver de maneira saudável.
Jesus é o maior exemplo de concessão de perdão a alguém. Ultrajado e violentado olhou para os seus algozes e disse: “Pai perdoa-lhes, eles não sabem o que fazem”. E nos deu uma aula brilhante após sua ressurreição. Ao apresentar-se aos apóstolos que estavam trancados numa casa, com medo dos judeus, soprou sobre eles e disse-lhes: “Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados lhes são perdoados; e àqueles a quem os retiverdes lhes são retidos.”(João 20:22,23).
Com esta expressão O Mestre Jesus nos ensinou que está conosco o poder de soltar o ofensor ou de continuar prendendo-o. A escolha é nossa. Perdoar é bom para o ofensor, e é melhor para o ofendido.
(Autor Ap. Rubem Cavalcante)
Assinar:
Postar comentários (Atom)
0 comentários:
Postar um comentário