Perdoar é cobrir a falta do outro e removê-la de dentro de nós, como faz o sangue de Jesus sobre os pecados de todas as pessoas. É o sangue de Jesus quem nos limpa dos erros cometidos, quem remove a nossa culpa, quem nos purifica e quita o nosso débito para com o Pai Eterno. Assim também faz o perdão que concedemos a alguém que errou contra nós. Nosso perdão envolve o outro em lençóis do nosso amor, absorve o erro que ele cometeu fazendo-o desaparecer do centro do nosso consciente, passando a ser apenas um fato na história da nossa vida, um arquivo sem tanta valia.
Perdoar remove a dor da ferida causada pela ofensa, e nos capacita a lembrar do ocorrido apenas como uma experiência vivida por nós, em um momento de nossa existência. Perdoar não causa amnésia, não faz banir de dentro de nós o registro do fato. Quem perdoa se lembra do ocorrido sim, mas sem tanta freqüência, e sem pesar. Quem perdoa se lembra sem dor.
Perdoar é soltar o outro e deixá-lo ir livre na vida para ser uma pessoa diferente, se quiser sê-lo. Se não o for, o problema não é nosso, é dele. Jesus nos ensinou a como lidar com as ofensas. Ele, do alto da cruz, olhou para os seus algozes e declarou em muito amor: “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que estão fazendo”. Estevão, o primeiro mártir do cristianismo, quando estava sendo apedrejado até à morte declarou em suas últimas palavras: “Senhor, não os consideres culpados deste pecado”.
Tanto Jesus quanto Estevão nos ensinam que perdoar encerra o assunto. Ninguém tem o direito de ficar lançando em rosto do outro o seu erro, após ter declarado perdão. Quando se perdoa, a falta é quitada e a dívida deixa de existir, logo não há porque ficar remoendo a ofensa, ou lançando-a na face daquele que errou. Quando Deus nos perdoa um erro cometido não fica nos acusando daquilo de que fomos perdoados, porque diante dele o erro não mais existe. Assim também deve ser conosco ao perdoar a alguém os seus erros.
Perdoar quebra correntes. Quando somos ofendidos e não lidamos com a situação através do perdão, nós ficamos amarrados pela mágoa, pelo ódio, pelo sentimento de vingança e nossa vida perde a graça, perde a doçura, ficamos amargos. O ofensor, por sua vez, já está amarrado pela corrente da culpa. E agora, não estão apenas presos em si mesmos, estão também amarrados um ao outro, porque o ofendido prende o ofensor a si pela lembrança magoada do ocorrido, e pelo estado interior de ressentimento. Além disto, ambos estão acorrentados pelos poderes do mal. Mas, quando a situação é tratada através do conceder perdão a libertação acontece, porque a corrente mental, emocional e espiritual se quebra. O Mestre dos mestres nos ensina ao dizer: “Não julguem, e vocês não serão julgados. Não condenem, e não serão condenados. Perdoem e serão perdoados”. Quem perdoa se desamarra, e desamarra o ofensor.
Perdoar e livrar-se do apodrecimento. Na antiguidade, os assírios tinham o hábito de tratar os vencidos na guerra com grande perversidade. Ao se sentirem senhores da situação, eles faziam da população derrotada refém, e começavam a tratá-la perversamente. Amarravam corpos mortos nas costas dos vivos e os deixavam caídos ao chão. Os corpos mortos inchavam, apodreciam, eram comidos por bichos que as moscas geravam. E os vivos tinham também seus corpos comidos pelos morotós, e em grande sofrimento agonizavam em apodrecimento. É exatamente isto o que acontece com as pessoas que são atingidas danosamente por outrem e não perdoam ao ofensor. Morrem podres, corroídas pelos dentes da mágoa e do ódio, e definhando descem à sepultura em grande dor. Quando perdoamos aos desafetos cessa o nosso apodrecimento, e nos tornamos pessoas saudáveis e belas.
Perdoar é livrar-se do ódio. “Ódio não adianta. O ódio come a gente”. Foi o que declarou o senhor Massataka Otta, em sua primeira entrevista à Revista Veja, falando sobre o seqüestro e assassinato do seu filho Ives pelos seguranças contratados para proteger sua família. Era como ele se sentia naqueles dias: um homem corroído pelo ódio. Isto permaneceu até ao dia em que se encontrou frente a frente com aqueles homens, e lhes declarou perdão. Ódio é grangrena que faz apodrecer, é câncer que corrói a pessoa e a mata. A palavra ódio na língua hebraica significa “mau cheiro”. É exatamente este o odor daqueles que abrigam tal sentimento em seu interior. Quando verdadeiramente liberamos perdão a quem nos atingiu, em nossa vida cessa o mau odor, porque o nosso apodrecimento também cessa. Ao perdoar retiramos o sentimento de ódio de dentro de nós, a lepra roedora desaparece, e a vida volta a sorrir.
Perdoar é bom para o ofensor, mas é melhor para o ofendido.
(Autor Ap. Rubem Cavalcante)
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